Cazuza (ou Caju, para os amigos)

Tem gente que a gente não conhece mas que a gente gostaria de conhecer! Assim é com Agenor de Miranda Araújo Neto. Ou Cazuza. Ou Caju, para os amigos (eu sempre o achei meu amigo).

É provável que em Portugal muitos não conheçam de quem falo (já no Brasil não há quem não conheça). É que há estrelas que de tão brilhantes que são brilham por onde quer que passem. Cazuza foi um astro na Terra e é para sempre uma estrela no Céu. Passo a apresentar-vos.

CAZUZA VIAGENS DA HELENA

Nasceu em ’58, vivendo a sua juventude num alucinante Rio de Janeiro. Embora se vivesse numa ditadura militar, o certo é que nada, rigorosamente nada, lhe foi proibido. O pai, famoso produtor musical, convivia com todos os astros do show business, que frequentavam diariamente a casa de família. Conta-se até que a dada altura uns certos baianos chegaram de Salvador e ficaram acampados na sala de estar lá de casa, eram uns meninos auto intitulados Novos Baianos, uns tais de Caetano, Gil, Gal e Bethânia! Assim cresceu o jovem com toda a proteção e mimo materno para desespero do seu pai.

Menino do Rio, classe média alta, foi um nem-nem (antes sequer de a expressão existir!). Cazuza nem estudava. nem trabalhava. Apenas vivia ao limite a liberdade de escolha que tinha. Quer fosse sobre o curso a estudar (foram vários), o emprego onde trabalhar (arranjos familiares que nunca resultaram) ou, bem mais interessante (para ele, com certeza!), com quem dormir (menina ou menino, ou os dois, tanto dava) ou qual droga tomar (na dúvida tomava todas), a verdade é que certezas e constâncias não faziam parte da maneira de ser do filho de João e Lucinha Araújo.

CAZUZA

Em ’80, década de ouro no Rio, regressa dos Estados Unidos, ingressa no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone (criado por Regina Casé e Luis Fernando Guimarães em ’74 … ela é a inesquecível Tina Pepper da novela Cambalacho e ele o marido da serie Os Normais, lembram-se?) no Circo Voador, originalmente no Arpoador em Ipanema, e actualmente lá na Lapa.

VIAGENS DA HELENA

Aqui, Caju canta pela primeira vez em público. Por curiosidade, imaginem, ele era um sopinha de massas, mas isso não o atrapalhou em nada! Ele berrava um rock com muito carisma e isso foi o suficiente para todos gostarem dele.

Com o Barão Vermelho, grupo rock que passa a integrar, chega à Som Livre, editora do seu pai, e lá o convence a apostar na banda. Não correu mal (mas muito modesto para as suas aspirações), mais tarde é com o apoio de Ney Matogrosso (que disse recentemente à revista Quem “Cazuza foi um dos três amores da minha vida.”) eles descolam para o estrelato.

Em janeiro de 1985, apresentam-se na primeira edição do Rock in Rio. Foi um momento muito simbólico porque coincidiu com a eleição do presidente Tancredo Neves e por isso com o fim da Ditadura Militar. Cazuza anunciou esse facto ao público e para comemorar, cantou “Pro Dia Nascer Feliz”.

Ainda neste ano ele abandona a banda e parte para uma carreira a solo. Mas esta não foi a única grande mudança. As febres constantes anunciam a doença maldita, SIDA (ou AIDS). O sucesso não mais o larga mas a doença também não apesar de todos os esforços financeiros e médicos dos pais em buscar novas terapias e tratamentos.

Em ’88 lança Ideologia onde a música Brasil, cantada depois por Gal Costa na abertura da novela de sucesso Vale Tudo, e se torna um retrato duma geração e um sucesso imediato.

Foi nesta altura que Cazuza entra definitivamente na minha vida, tinha catorze anos, e na rebeldia e questionamento permanente da minha vida (e da sua também) eu encontrei a identificação que precisava. “Exagerado, eu sou mesmo exagerado!” Para Sempre.

Em fevereiro de 1989, sem conseguir mais fugir da doença que o mata aos poucos, Cazuza declara publicamente que era seropositivo, e cria assim a consciência necessária em relação à doença e aos efeitos dela.

Depois de uma luta inglória, no dia 7 de julho de 1990, Cazuza não resiste e morre devido a uma septicemia causada pela SIDA, dando uma lição de coragem e dignidade contra uma doença, ainda meio desconhecida, que jamais será esquecida.

Foram apenas dez anos de carreira, mas Cazuza deixou um legado inigualável de 126 canções gravadas, 78 inéditas e 34 para outros intérpretes. Os pais fundaram a Sociedade Viva Cazuza, em 1990, com a intenção de proporcionar uma vida melhor a crianças seropositivas através de assistência à saúde, educação e lazer. 

Um menino genial! Músico, compositor, interprete e poeta! Que saudades meu querido Caju!

mh

 

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