Chico, a Banda vai passar

Quando em ’66, quando eu não era ainda nascida, quando o Chico ainda não me tinha feito sonhar, suspirar pelos seus ternos olhos azuis, desejar a sua mão firme em mim, desmaiar com os seus doces beijos cantados, a Banda passou e não mais se calou!

Ele era um menino, bonito, como todos somos algum dia, e cantava livre, e bebia uísque, muito uísque, e tocava seu violão. O sonho, que depressa morreu num cativeiro sem amarras, nunca o largou e ele, que é poeta, sabe, que o desespero dos que não acreditam, entre copos, se espanta cantando.

Hoje, que não mais sonho com o homem, apenas com o poeta, que não é de carne, mas me eleva, celebro a sua arte. Seu samba. Seu choro. Sua música. E a música foi o fio condutor, o elo que se fortalecia a cada acorde, a cada sotaque. E, no gingado, requebrado, ia dançando embriagada pelo acerto da batuta que compassava meus passos.

Chico, para uns desconhecidos (como se isso fosse possível), para outros amado, idolatrado, odiado, desprezado é a fantasia do ideal imaginado que existe em cada uma, menina ou mulher, em cada uma de nós mulheres.

Hoje é sábado (e Vinicius que me perdoe, sua vez chegará!), descanso agora em seus braços, sonhando ao longe com os sopros em crescendo anunciando a chegada. É Chico, estou chegando! E, injusta como só poderia ser com você, vou lá trás e deixo a Banda passar (em dia de deBanda.da).

A Banda, Chico Buarque de Hollanda, 1966

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas
Parou para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

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